3.6.12

Transição



[...]É porque tem esse cheiro de leite, esse ar de infância. Parece coisa nova...
Parece brinquedo novo, apesar de eu não usá-lo como se fosse um.

Me dá vontade de viver mais, de cantar mais. Apesar de ser tão inocente e “parecer” possuir poucas experiências, faz eu me sentir segura na maior parte do tempo.
Mas como qualquer um, morro de medo de perder para o primeiro par de olhos castanhos cheios de cachos que surgir.

Me dá uma vontade absurda de roubar e esconder do resto do mundo inteiro, me dá vontade de ser eu mesma, de não precisar de rótulos. Me faz sorrir bem mas. 
Acho que é por isso que eu gosto desse lado novo, do fato dele ser tão novo.
De ter que superar espinhas e os hormônios a mil! De ouvir a voz mudando a cada dia que passa...

Acho que é por isso que eu gosto tanto dele, esse pedaço de mudança constante.
Acho que gosto porque tudo nele sofre transição, mas eu fico ali.
Eu não mudo de lugar.

20.5.12

Lá para das Canas




Eu queria que nós viajássemos por dias, ou por horas. Eu queria não, eu quero!
Pra longe ou pra perto, contanto que você esteja do lado.
Quero desligar o seu celular, e o meu também. Comprar bebida barata, me alimentar mal, dormir pouco pra aproveitar o tempo. Jogar os relógios no mar.
Quero me deitar com você em lençóis impecavelmente brancos!
Quero ir de novo ao mundo de Sophia! Ver seu rosto depois do banho e ouvir tua voz rouca ao acordar.
Quero até teu mau humor e não me importo se sua perna acabar em cima da minha costa durante o sono.
Seus momentos de birra, as tuas mordidas espalhadas em locais estratégicos do meu corpo.
Os teus suspiros cada hora mais profundos, as nossas histórias, os nossos segredos de liquidificador.
Teu cigarro forte e o modo como você o acende. Tuas tragadas feitas de forma calma, teus olhos semi cerrados.
75 horas, só pra gente se enjoar, se gostar e se Amar. Só nós e o mar, uma ilha, um oceano sem fim.
Longe e perto daqui. Perto de ti, do teu lado. O peso do teu corpo. Do lado de fora por cima, e do lado de dentro também.
Pra saciar a sede, pra acabar com a vontade. Numa ilha pra ninguém saber, ninguém incomodar.
Pra gente esquecer os outros e o resto do mundo esquecer-se de nós.
Morrer para o que existe depois da porta. Viver para o que existe aqui, do lado esquerdo do peito.

Legalizadores

Amantes… Da vida, da música, de falsetes, de graves.
Amantes das ervas, da paz e do desespero. Amantes de suor, pele, cheiros e pêlos.
Seres que cantam, escrevem. Só um dos dois compõe, só um dos dois se morde.
Os dois se querem, se engolem, se desejam.
São pedaços, casas, roupas.
São um só e milhares.
Faces, Amor, Saudades, Passado.
Um dentro do outro, vivendo do lado de fora.

15.5.12

Fração




Passei pelo portal sentindo um vento frio tocar meu rosto. Esse vento frio acontece toda vez que coloco meus pés naquele piso de mármore, e é normal.
É uma mistura de ansiedade, magia e encanto.
Sempre parece que ainda é aquela tarde de dezembro quente, em que outros braços me seguravam e eu caminhava por aquele lugar com olhos desejosos.
Agora a folha do calendário havia virado, e muito! Eu quase completava 22 invernos e tu estavas na primavera da idade.
Havias mudado teu fuso para me ver! Não precisou mudar a estação, e isso é bom! Você deveria achar que estava em casa... Era isso que eu queria que você achasse!
Caminhei até as barras de ferro, saquei meu celular do bolso da jaqueta e ao olhar para a tela: 4 chamadas não atendidas sua!
Todo mundo conhece essa minha mania desligada de ser e nunca atender ligações, é normal! Você vai ter que se acostumar também!
Mordi meus lábios secos por culpa do frio, suspirei pesado...
Ao fundo eu podia ouvir risadas, ver famílias andando por aquele lugar, casais, amigos.
Sorri e pensei em dar um grito de felicidade. Algo explodia dentro de mim!
Segurei minhas mãos apertando cada dedo, tirando de mim toda a força excessiva!
Achei melhor ligar para a minha amiga e dizer que estava no local marcado!
- Estou aqui! Ele está com você? – Perguntei num sussurro, como se contasse um segredo!
O vento cortou um pouco a ligação, mas entendi perfeitamente: - Está sim, e já estamos quase perto do portal! -
Desliguei rapidamente o celular e comecei a tremer! Não era frio, não era nada!
Ou melhor, era sim: Nervoso, falta de ar, vontade, desejo, Saudade do que nunca toquei, do que ainda nem havia acontecido! Era tanta coisa junta...
Pensei em andar em círculos, pensei de novo em gritar. Mas a única coisa que fiz foi colocar minha mochila no chão e procurar equilíbrio em um pilar que estava perto! Baixei os olhos encarando meus tênis, notei que havia uma mancha escura nele...
E não demorou muito até que eu tivesse a sensação de que eu estava sendo observada! Eu sabia o que era, eu sabia QUEM era.
Mordi o canto da boca e levantei a cabeça aos poucos... Era ele!
Sorriu! O sorriso de bebê que a alguns meses eu imaginava como seria ver de perto. Caminhou devagar até onde eu estava e pronto, nada mais ao redor existia!
Eu conseguia ouvir música por trás de tudo aquilo! Era como se na minha cabeça, alguém tivesse apertado o botão “play” e uma trilha sonora inesquecível começasse a tocar...
As notas se abriam e ficavam intensas conforme ele se aproximava!
Até que aquele som que ecoava em mim, agora estava no ápice, mixado com as batidas do meu coração: Você estava diante de mim!
Olhou sem saber o que falar, e eu muito menos! Na falta das palavras: Atos!
Emoldurou minha cintura com seus braços e me puxou pra perto. Sorriu de lado.
O mesmo sorriso que ele me dava quando eu dizia algo que o agradava.
E eu continuava ali, sem saber o que dizer, pensando muito!
Fechei meus olhos e trancei meus braços em seu pescoço!
Tudo foi ficando turvo, vago, distante!
Abri os olhos me deparando com a parede branca do meu quarto! Meu despertador tocava, o desliguei e levantei. Era hora de acordar.
Mas já passava da hora de te ver!

13.5.12

Unha

- Esse é o último ônibus que vamos pegar antes de chegar em casa pessoal! -
Eu caminhava em direção ao banco gelado de cimento. Era o último dia do ano e este estava cinza!
Meu corpo permanecia arrepiado por culpa do vento gelado, e por culpa do short muito curto que eu decidi usar naquela viagem.
Sentei e um espaço para mais uma pessoa sobrou ao meu lado direito, não chamei ninguém para ficar ali.
Comecei a olhar atentamente minhas unhas irregulares enquanto passava minhas mãos nos joelhos frios.
Sentou-se rapidamente ao meu lado e segurou meu pulso. Olhei de canto para o sorriso conforme ele conversava com outras pessoas.
Segurou um dos meus dedos e começou a brincar com uma unha; fiz uma careta que dizia “essa-unha-está-mal-feita”. Ele ignorou e continuou...
Todos meus amigos ali fizeram uma roda, colocando suas bolsas no chão e sentando sob elas enquanto esperávamos o ônibus chegar. Planejávamos a respeito da noite, do que faríamos ou deixaríamos de fazer.
E ele ali, do lado direito, brincando com meus dedos e até descascando o esmalte, o que me deixou um pouquinho brava. Abraçou meus braços para me esquentar e me sorriu de novo. O sorriso que me faz esquecer até que eu passaria a festa com uma unha falhada.
Ele estava ali, como eu sempre quis que estivesse. Da maneira certa, no dia certo, no local certo. Na época certa!
Era o dia do fim e do começo, e para variar, ele estava comigo.

11.5.12

Oeste


A curva fácil do ombro, os olhos piscando pesadamente. O sorriso de menino me amarra, me deixa aqui presa, sem ter para onde fugir. Não que em algum momento eu tivesse pensado nisso...
A brisa leve de uma tarde de sábado, aquele misto de dor e ansiedade. As lágrimas beirando as pálpebras.
Do lado direito quem está segurando a minha mão não é você. É só alguém, mais um que em cinco minutos iria fazer meu coração virar pó.
A luz do sol passava pelo vitral deixando o piso branco colorido e me fazendo pensar: - Quero estar com ele aqui! -
Eu imaginava te ter ali. E te sorrir, te abraçar. E fazer um dia virar dois, quatro ou até mesmo seis.
Cabe tanta coisa dentro desse espaço entre o nascer e o pôr do sol. Cabe essa Saudade e esse desejo do “ter”.
A pele branca, a curva do pescoço e os lábios formando um desenho.
Um pedaço gracioso que vive longe daqui. Era pra estar perto.
Um instante de paz que não posso tocar. Era pra viver aqui.
É quando tudo some, é quando nada mais resta. É quando ele fica longe, mas perto.

10.5.12

A Nossa Hora



Eu te achei no tempo
Como quando você está passando e vê um relógio parado. Um relógio sem horas para mostrar, com os ponteiros empoeirados, inertes.
Eu era a hora. Ali, parada e morta.
Tu eras o passante e tu buscavas algo: O tempo.
Tu me achou numa parede.
Na realidade tu não pensava muito. Teus pulsos vazios condenavam alguém que queria viver, mas que em um momento ou outro, buscava um relógio qualquer, que lhe fosse um sinal, um guia.
Para saber que não estava perdido.
O relógio para nada mais servia. O vidro trincado e os números tortos.
Era imprestável e poderia ser jogado fora. Mas ali tinha tempo, o que faltava era  a vida.
Tu limpou os ponteiros, colocou os números no lugar, cuidou do vidro trincado. Deu vida.
Eu te dei tempo.
E calma e intervalo para os Sonhos.
Tu me deu os novos sonhos.
Eu te dei os quartos das horas, os terços das rezas, o meio dos meus braços.
Tu me deu as madrugadas e com o meu tempo eu as fiz passarem devagar.
Eu te achei no tempo. Parado, inerte, olhando pra mim. Perdido.
Eu fiz você se achar.
Eu te achei no tempo.